As origens da arte cinematográfica se confundem com o ímpeto científico e explorador do século XIX. Quanto mais insinuante se mostrava o interesse dos pesquisadores europeus pela cultura exótica dos povos africanos, latinos e asiáticos, mais útil parecia a fantástica máquina que recriava com sombra, luz e movimento, a vida dessas civilizações desconhecidas.
É desse modo que ciência e antropologia travam sua relação inicial. O cinematógrafo, é claro, surge para o antropólogo como a extensão do seu caderno de anotações, uma espécie de diário de campo filmado. Entretanto, a apropriação meramente instrumental da linguagem audiovisual no universo científico jamais deu conta de explicar essa imbricação. Esses dois universos, simbioses da arte e da pesquisa, tinham muito mais a intercambiar do que meras trocas de favores utilitários.
Vladimir Carvalho é um dos precursores do cinema documentário no Brasil. “Este cineasta e jornalista conviveu com artistas como Caetano Veloso, Glauber Rocha e Torquato Neto, e trabalhou com Eduardo Coutinho e Arnaldo Jabor. Por estas e outras razões o escolhemos para ser o homenageado da 6ª Cinedocumenta.
Terminado o ginásio, em 1954, onde foi aluno de geografia de Linduarte Noronha, que ainda não era cineasta, Vladimir ingressa no curso clássico. Fazia um programa de rádio, Luzes do Cinema, em 1959, em João Pessoa, e colaborou na imprensa local como crítico iniciante, quando Linduarte Noronha o convidou para escrever o roteiro de Aruanda, do qual seria, depois, também assistente de direção, com João Ramiro Mello, um amigo para sempre.
Na década de 1980, Vladimir filma seus longas O Homem de Areia e O Evangelho Segundo Teotônio. "Teotônio" ganha a Margarida de Prata e "O Homem de Areia", o prêmio do Concine (Conselho Nacional de Cinema). Em 1986, Vladimir reativou suas filmagens sobre um tema que lhe foi muito caro: a realidade dos operários que construíram Brasília, os chamados candangos. Conterrâneos Velhos de Guerra traz de volta o obscuro episódio de uma chacina de operários ocorrida num acampamento de uma das empreiteiras responsáveis pela construção de Brasília.
Em 1990, Conterrâneos Velhos de Guerra surpreende o Festival de Brasília e sai consagrado com muitos prêmios, inclusive o de melhor filme em sua categoria. Ainda em 1992, Vladimir viaja para a Europa, convidado para ser jurado no Festival Cinéma du Réel, na França, onde Conterrâneos Velhos de Guerra é convidado hour-concours.
Em 1994, Vladimir cria a Fundação Cinememória, mudando-se para uma casa na avenida W3 sul, em Brasília, para onde leva todo o seu acervo. |
A inauguração da Fundação Cinememória dá-se durante o Festival de Brasília, com o apoio de Luíza Dornas, então Secretária de Cultura. O cineasta italiano Bernardo Bertolucci é um dos assinantes do livro de presença e saúda a iniciativa de Vladimir propondo "entrar para o Cinema Novo brasileiro".
Em 1998, a Câmara Distrital confere-lhe o título de cidadão honorário de Brasília, pelos serviços prestados à cultura e por sua dedicação à comunidade brasiliense. Ainda neste ano, Vladimir dá início à produção de seu longa metragem Barra 68, outro projeto que lhe era muito caro desde que chegou a Brasília. O filme conta as agressões que a Universidade de Brasília sofreu com a ditadura militar e a dura repressão que se seguiu.
Com o prêmio que recebeu pelo filme, Vladimir constrói um pequeno auditório na Fundação Cinememória.
Em 2004, por decreto do governo do DF, Vladimir é nomeado embaixador cultural da cidade, junto com outras personalidades.
Em 2005, Vladimir começa a filmagem do longa metragem O Engenho de Zé Lins, sobre o escritor paraibano José Lins do Rego.Em 2000 Vladimir é convidado para presidir a Fundação Astrojildo Pereira.
A Cinemateca Uruguaia o homenageou com uma retrospectiva completa de sua obra e, por isto, Vladimir foi ao Uruguai participar das homenagens e dos debates.
Em 2009 Vladimir retorna a Ipatinga para nos propiciar uma boa conversa após e sessão de O Evangelho Segundo Teotônio.
Nossa iniciativa justifica-se também pelo ineditismo de oferecer, ao público de uma região afastada dos grandes centros, a possibilidade de assistir filmes de Jean Rouch.
A Mostra Cinedocumenta projetará a obra desse cineasta francês a estudantes de 1º, 2º e 3º graus e ao público em geral do Vale do Aço, no intuito de popularizar o cinema de arte e fomentar o debate entre realizadores locais, nacionais e internacionais.
A data do evento também tem um significado especial. 13 de maio, dia da abertura da 6ª Cinedocumenta é também dia da Abolição da Escravatura. Sobre a égide dessa problemática, o debate do Cinema X Antropologia vai perpassar pelo território da discussão de um dos assuntos mais centrais da brasilidade, ou seja, a herança e a dívida social que os trezentos anos de escravidão deixaram para a sociedade brasileira.
Temos o desejo de que as artes também signifiquem a máxima expressão da palavra LIBERDADE.
Éderson Caldas e Sávio Tarso
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